segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Debaixo da capa

Gostava de controlar a minha vida, da forma como às vezes creio controlar. Pegava no telemovel e com um toquezinho resolvia tudo. Ia à lista telefonica e escolhia. Vinham as borboletas, os olhos de carneiro mal morto e prenchia todos esses vazios. Quando a coisa passasse, ia às opções, apaga e já estava. Quando quisesse, escolhia outra vez e uau, o mundo cheio de borboletas outras vez.
Vivo entre essa dicotomia de quem quer ser uma mulher do seculo XXI, independente para tudo e a vontade de ser melhor amada. Às vezes, sou feliz, eu acredito que sou. Vou jantar fora, rio um bocado, escrevo outro bocado, trabalho, atinjo objectivos e corre tudo sobre rodas.
Vesti a capa que alguém me disse que me ficava bem. Como aquela saia da Zara, essa é que é, fica-te mesmo bem. Agarro-a com força e sinto-me quentinha. Às vezes resvala um bocadinho. Sinto o frio no ombro e puxo-a outra vez. Outras vezes resvala um pouco mais, perco a força nas mãos e quase quase a deixo cair. Sinto o frio no peito e deixo de respirar. Às vezes apetece-me deixá-la cair e acenar com toda a minha força. De forma eloquente. Até aquecer, até perder o medo, até ser feliz.
Até ser como o livro chato que às paginas tantos se transforma no mais genial. Afinal era só o inicio, só para enquadrar, só para chegar ao entusiasmo. Às vezes acredito que a página chegará, mesmo mesmo quando estiver quase  a desistir. Depois das descrições sobre cortinados, moveis do seculo da maria caxuxa, candelabros xpto. Até que chegam os desamores, o irmão que é irmão, mas afinal não é, a intriga, mas das boas, a paixão assolapada.
Quase que és essa página. Falta-te o quase. Às vezes olhas e parece que vês. Ia jurar que os teus olhos fixavam debaixo da capa e, melhor ainda, percebiam tudo tudinho que estava lá por baixo. As outras roupas, as formas, os acessórios. O escondido e o descoberto. Percebiam e não julgavam. Aceitavam. Abraçavam, procuravam saber mais, sem transpor as regras do decoro, descobriam e elogiavam. Diziam a verdade, tal como dizes quando não achas piada, tal como te lembras quando te perguntam por quem escreve. Devia chegar-me essa tua lembrança, mas não chega. Porque fica muito mais quentinho quando deixo cair a capa ao pé de ti e eu sinto falta de calor.
Porque os espaços preenchem-se e eu sinto-me vazia. Porque, às vezes, me fazes sentir melhor. Muito melhor.

3 comentários:

Ricardo disse...

Controlar, controlar a vida não tem graça nenhuma. É muito melhor deixarmo-nos levar, mesmo que por vezes isso nos faça sentirmo-nos vazios. É bem melhor.

MRPereira disse...

Experimenta tomar conta da situação internamente. Faz com que o cérebro se sobreponha ao coração e racionalmente chegue à conclusão que realmente precisas!

No que diz respeito à personagem, nada que um pouco de sinceridade não resolva!

Compreendo que possa ser complicado, sem dúvida, mas é sempre preferível experimentar e correr menos bem que não experimentar e ficares com aquela sensação de "E se..."!

Kiss kiss

Margarida disse...

Gostaria eu de ser controlar a vida dessa forma... Mas, o certo é que esse controlo que se persegue nos escapa por entre os dedos, quando mais o queremos alcançar...