segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Bicho papão


8 horas. Estou  estendida no meu sofá, a ver uma qualquer serie. Num esforço continuo para não adormecer.
Vivo num res-do-chao. ao lado da minha casa há um caminho, com cerca de meio metro de largura e que leva a parte de tras da casa, uma espécie de quintal. Um quintal publico, onde os meus vizinhos acumulam madeira para a neve e onde a vão buscar, de vez em quando. Tenho duas janelinhas para esse caminhozinho. Na minha primeira tarde assustei-me com um vulto que passava e, por isso, passei a ter sempre os cortinados corridos. Para não me assustar e manter a minha privacidade.
Pois ontem, quando estava ali tão descansadinha, alguém bateu com muita violência no vidro. Levantei-me num ápice e fiquei a espera doutro sinal. Mais pancadas fortes, desta vez na outra janela. Vi uma sombra que se afastava e ouvi miúdos a rirem-se.
Senti-me vulnerável e esse estado impediu-me de ir espreitar. Como se essa minha vulnerabilidade fosse visível aos olhos de quem poderia ali estar.
Fiquei em silencio, a espera. Talvez me estivessem a chamar por um qualquer motivo, talvez fossem os miúdos numa brincadeira parva. A segunda opção e a mais provável.
Passei a noite sem dormir, em estado de alerta, atenta aos demasiados barulhos que se destacavam no silencio. Demasiados. A caldeira que, de vez em quando arranca, o relógio da minha caldeira, que soa um estalido a cada meia hora. Outros estalidos impossíveis de identificar.
Quando decidi mudar de pais, para um novo trabalho, todos me diziam que era um acto de coragem.
E eu, sinto-me muito feliz desde aqui estou. Na verdade, mais feliz do que antes de vir. Mais feliz do que nos últimos anos.
As vezes dou por mim a perguntar, para que era preciso essa coragem. Que o mau, se calhar, ainda estava para vir.
Há a neve e a chuva e o mau tempo e a comida, desafios que moem mas não matam. O que poderia ser pior? Onde estava esse bicho papão que requeria tamanha coragem?
Ontem descobri. Tenho medo do escuro.

3 comentários:

rm disse...

acho que em determinadas alturas da vida, todos tememos alguma coisa.

Mie disse...

E natural que ouvindo esses barulhos na janela te assustes, acontecia o mesmo que se fosse comigo.
Foi apenas uma brincadeira dos miudos, ultrapassa isso senao nunca mais tens uma noite sossegada.

nils disse...

Deixas-nos aqui a temer por ti. Um conto arrepiante. Faças o que fizeres não leias o Bram Stoker. Ou o Alan Poe. :)