terça-feira, 22 de março de 2011

Diferente

Um dia, em vez duma, olhei duas vezes.
Olhei a primeira, "olá, tudo bem? Que tal a familia, a saudinha, olhameste tempo que se pôs. Beijinho, até à próxima, vou só ali, venho já." Mas o raio do pescoço não foi. Em vez disso virou-se outra vez. E os olhos também, não, e olharam uma segunda vez. Pshhht, estejam quietos, que é isto de se armarem em carneirinho mal morto. E a cabeça pensou
Como posso ser eu diferente das outras?
Depois vieram as palavras. Vou dizer qualquer coisa realmente inteligente. Ups, parecia mais inteligente na minha cabeça. Vou dizer uma piada para contornar a situação. Ups, tinha mais piada na minha cabeça. Vou falar na situação na Libia e encerro o assunto. Ups, não fosse a tirada inteligente e a piada, isto fazia sentido.
Como posso ser eu diferente das outras?
E depois veio o silencio. Tenho que deixar de dizer coisas parvas. Tenho que ser mas gira. Tenho que estar menos disponivel. Tenho que ser mais porreira. Tenho que ser mais.
Como posso ser eu diferente das outras?
Depois vieram as mensagens outra vez, oh alegria, já está a resultar.
Como posso ser eu diferente das outras?
Não sou. Não serei.
Quem são as outras?
As que se encantam, as que idolatram, as que querem ser diferentes, as que vão na cantiga, as que fingem que não vão, as que se envolvem.
E o que é ser diferente?
É não me encantar, não idolatrar, não tentar ser diferente, não ir na cantiga, nem fingir, não me envolver.
Ficou decidido.



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