sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os culpados (todos)





Tão estranha é a situação de ter um país que se auto-imolou no meio de uma crise grave, que nem a União Europeia sabe ainda bem o que fazer connosco. Portugal - que até há dias tinha um primeiro-ministro que batia com o punho na mesa, jurando perante o mundo que o seu país não pede esmolas - atirou-se literalmente para o colo daqueles que vão ajudar a pagar as contas e a evitar um colapso dos bancos. É aí, na frieza desse colinho europeu, que este país sem governo e sem acordo sobre medidas previamente acertadas na Europa aceitará da mesma Europa tudo o que for preciso. Sobra um vago conforto: a classe política que nos últimos meses protagonizou o maior fracasso na história de nossa de democracia fica de camisa-de-forças, sem espaço para promessas, sem margem para loucuras.

Em termos financeiros este é o pior resultado para nós, portugueses. Suportámos taxas de juro insustentáveis para ir dar ao mesmo beco - essa factura está por calcular - e fracassámos na tentativa já de si difícil de conseguir uma forma mais vantajosa para a inevitável assistência externa. A falta de credibilidade do primeiro-ministro tornava a tarefa complicada e o episódio trágico do chumbo do PEC IV pôs ponto final no assunto. Agora que se começa a gerar uma vaga para nos "concentrarmos no futuro" e "não olharmos para trás" - algo muito português - nunca é demais sublinhar a responsabilidade dos envolvidos.

O primeiro-ministro José Sócrates usou o PEC IV para fazer cheque à oposição, usando o país como refém - esta esperteza saloia, somada à manipulação do valor do défice nas eleições de 2009 e aos erros sucessivos de política, terá de ser julgada nas urnas. Sócrates encarou sempre a situação extrema do país como uma questão pessoal, um comportamento levado ao limite da loucura nas últimas semanas, até os banqueiros e o ministro das Finanças lhe tirarem a arma das mãos - já não se aguarda o que dirá agora o homem que garantiu que nunca iria governar com o FMI, porque o que Sócrates diz já não tem peso. A oposição, sobretudo o PSD, mordeu o isco e ao chumbar o PEC sem tentativa de acordo - pôs-se também à frente do país. Não viabilizou um pacote de austeridade para agora acolher de braços abertos outro pacote mais duro, negociado quase sem condições. Não há estadistas em Portugal - incluindo em Belém, de onde a tão propalada "experiência" nunca produziu uma solução em tempo útil.

Pelo caminho, o que restava da reputação do país foi definitivamente enterrado - levará anos a recuperar este capital de confiança. Como a confiança é essencial nos negócios - ou seja, para milhares de empregadores - será uma questão de tempo até que as empresas portuguesas sejam alvo de condições muito duras por parte dos parceiros estrangeiros. O ajustamento português seria sempre duro - mesmo com o que parece ser uma inevitável reestruturação da dívida - mas a forma como capitulamos levará a dureza e danos sociais evitáveis.

Estes erros tremendos não explicam tudo - mas pioram a factura de uma acumulação de erros nos últimos 20 anos, deixando ainda uma sensação de que andamos à deriva, sem liderança nem motivos para esperança. O recurso a este pedido de assistência significa o início de um novo ciclo em Portugal - teremos, todos, de reajustar o padrão de vida aos nossos meios. Para a minha geração (nasci em 1976) significa cerca de 20 anos (contando a última década) de crise e aperto. Em paralelo com este ajustamento das expectativas e da vida dos privados terá forçosamente de ser feito outro - o dos partidos. Portugal pode aproveitar esta suspensão da democracia e da soberania - porque é com isso que estamos confrontados - para reformá-los. Se tal não acontecer, por mim podemos deixar os nossos líderes políticos de camisa-de-forças.



Artigo do jornal i - http://www.ionline.pt/conteudo/115995-com-politicos-assim-portugal-nao-precisa-inimigos

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