domingo, 20 de maio de 2012

Ainda sou gente

Durante cerca de um ano fui vitima de agressão psicológica. E esta é uma frase que ainda me custa escrever. Tudo aquilo que não é físico nem palpável é difícil de classificar e, ao escreve-la, estou apenas a citar uma psicóloga, uma medica de clinica geral, uma enfermeira e um director de recursos humanos. Por serem tantos, acredito um bocadinho mais. Porque de resto, eram só palavras e não é suposto palavras afectarem-nos tanto. E eu sinto-me fraca por tê-lo permitido.
Durante um ano, chorei dia e noite. Deixei de dormir para chorar, tentei trabalhar enquanto escorriam lágrimas que me impediam focar o raio do monitor. A minha auto-estima reduziu-se a abaixo de zero. Puseram-me de baixa por exaustão e falaram-me muitas vezes num tal de limiar de depressão. O meu maior pesadelo, por ser uma doença que tenho muita dificuldade em entender. Dizem-me que não cheguei lá e que devia congratular-me por isso e eu não consigo. Fiquei 6 semanas numa casa, que não é minha, que vejo apenas como ponto de passagem e como moldura a uma situação que me deixava infeliz. 6 semanas sem febre, tosse ou qualquer sintoma dessas doenças que me faziam sentido a mim essa coisa de não ir trabalhar. Tive que tomar medicação que, segundo me disseram, não era forte e servia apenas para me permitir descansar.
Acabei por conseguir limitar o contacto com o agressor. Ainda o vejo e ainda o ouço, mas já não lhe é permitido atacar-me. Por vezes, provoca-me, deixa frases no ar, vitimiza-se ele próprio e aquilo que eu sinto são dores físicas. Sim, físicas. Esse é o poder das suas palavras.
Gostava de dizer que ainda estou a acordar desse pesadelo. Custa-me dizer que já acabou, porque deixou um amargo que temo que fique para sempre. Porque me sinto descolada daquilo que acredito que sou, como se me visse por fora. E de fora, a imagem nem sempre é bonita.
Acordei desse pesadelo a sentir-me menos gente. Com mais 10 kilos, sem amigos e naquela casa que não é minha, mas onde durmo há ano e meio.
E é por isso que a verdade, essa historia da força de vontade ou falta dela, a gordura, as roupas e essas coisas todas me são, actualmente, um ponto fraco. Não ajudam a sentir-me gente.
A melhor ideia que tive, depois de arranjar a cadela mais linda do mundo, foi desistir da dieta.
Poder sair com aqueles que poderão eventualmente vir a ser amigos, sem restrições alimentares ou alcoólicas fez-me sentir um pouco mais perto daquilo que sempre fui, antes de toda esta história. Poder beber, e aqui admito que sou dessas que se diverte muito mais com um copinho na mão, sentir-me mais desinibida, dizer as minhas piadas e sorrir, foi o melhor que já fiz desde que me mudei para Irlanda. No final da noite, ainda ganhei uns beijinhos do miúdo giro que costuma estar encostado ao bar e que nunca durante dieta me permiti mostrar interesse.
E senti-me gente. Outra vez.

4 comentários:

Quase nos "entas" disse...

A agressão psicologica nao deixa marcas visiveis aos olhos, mas deixa marcas profundas e muitas vezes que não passam....
lamento muito a tua situação e torço pela recuperação da tua auto estima...essa que é a primeira a ir...
Beijinhos e força

Anónimo disse...

Olá Clara
Já leio o teu blog há bastante tempo. Mas só agora comento.
Para te dizer que és capaz e que estás no bom caminho.
Eu acho que o mais importante na historia das dietas é o reforço positivo. Dá valor ao que consegues fazer e não hipervalorizes o que não consegues. As coisas vão-se encaminhando.
Um abraço e parabéns por não te deixares triturar por essa pessoa.

Joana

Anónimo disse...

Sofri o mesmo durante quase 5 anos.... e ainda tenho as marcas todas no meu corpo...marcas essas q não consigo apagar.

bee disse...

clara, espero que consigas dar a volta depressa. já passei por algumas situações dificeis e comprovo que aquele ditado do 'que não nos mata nos torna mais fortes' é mesmo asim. é preciso é dar-nos tempo para recuperar forças.
um beijinho*