domingo, 30 de setembro de 2012

Quem conta um conto #2

No singular


A saia preta vestida, a cara maquilhada, o cabelo escovado, o pescoço perfumado.
Chama um taxi, indica ao taxista a morada do bar. Não ouve o que lhe conta o taxista, acena-lhe que sim, fingindo, enquanto observa as ruas percorridas.
Sente a inercia lá fora como sua ou vê reflectida nessas ruas a sua propria vida. Não sabe o que nasce primeiro.
Chega. Entra no bar. Não olha à sua volta. Não vê, nem ouve. Dirige-se ao bar. Um vodka, dois vodkas, três.
Finge movimentar-se ao som de uma musica, cujo o ritmo não sente.
Olha à sua volta. Começa a sua escolha. Não precisa que seja bonito, que que seja alto ou que seja interessante. Normal, talvez mediocre. Quanto baste.
Espera que a abordem.
Aproxima-se um homem. Trocam palavras. Mente-lhe e diz que as amigas estão lá fora. Entrou sozinha e não sairá sozinha. Por agora, essa informação chega a apenas a si própria. Tem um objectivo para essa noite e terá que o cumprir.
Uma palavra errada, um gesto em falso. Não lhe agrada, afasta-se. Dizem que os preliminares começam assim , numa conversa. Não para ela, para ela comeca aenas nessa simples conversa o que lhe corta o desejo. Talvez por isso não fale muito. Olha apenas.
Aparece-lhe outro homem. Bonito. Porte atlético. Diz-lhe que a acha bonita. Ela dá-lhe a mão. Sorri-lhe. Saem. Procuram um hotel.
Talvez assustado com a facilidade, talvez ela força do hábito, João, mostra-lhe as duas camas. Confessa-lhe que é casado. Tem dois filhos. A mulher que era tão querida antes de casarem, a mulher que... Ela deixou de ouvir. Não lhe interessa. Explica-lhe que não entrou num quarto de hotel acompanhada, para isto. Pensa no outro homem. Já não se lembra do que não lhe agradou. Não lhe disse que era bonita. Foi o que faltou.Pergunta-se se também teria tamanha bagagem e tamanha vontade de partilha.
Beija-o para o calar. Para cumprir o seu objectivo. Despem-se com pressa. Deitam-se. Sente o seu peso e deixa-o que a coma. Entre gemidos fingidos grita de dor, de solidão, de saudade. Espera que ele termine. Que adormeça. Para então aninhar-se nos seus braços, sentir-lhe o cheiro, beijar-lhe a face. Finge que aquela é a sua vida. Que uma noite não é só uma noite. Que a sua vida se conjuga no plural. Na primeira pessoa do plural. Nós somos, nós fazemos, nós sentimos, nós queremos, nós...
Ele acorda. Come-a outra vez. Dorme outra vez. Ela sai. Pé ante pé. Com cuidado para não deixar memórias, sinais, contactos.
Outro taxi. De volta a casa. Deita-se. Esquece.

6 comentários:

Anónimo disse...

Eu ainda hei-de fazer um filme da tua vida! Espectaculo.

clara disse...

Temo qe fosse o filme mais aborrecido do mundo.

Anónimo disse...

Oh rapariga! nao estejas assim!! com calma chegas lah minha prinssuza.

clara disse...

Uma miúda já não pode ser modesta, querem lá ver?

nils disse...

Gostei aos molhos. Conciso, bem escrito, com partes bonitas, mesmo. Sério... Uma rapariga já não pode ser modesta? Não... :)

clara disse...

Obrigada, Nils. It means a lot coming from you :)