quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Quem conta um conto...


Observava-o enquanto bebia o seu café. Os óculos, o penteado, a roupa, os gestos. O vento que o despenteva, o sol que iluminava cada um dos seus poros. As mãos pousadas em cima do jornal, o jornal pousado na mesa da esplanada. A esplanada vazia. A empregava que volta e meia espreitava os seus clientes, tentado adivinhar-lhes alguma urgencia.
Não se lhe conheciam urgências. Conheceram-se num logo namoro. Despacharam-se nos estudos, na busca de emprego, nos filhos. Despacharam-se.
Pouco tinham mudado. Olha-o novamente. As rugas que vincam as mesmas feições, o cabelo grisalho que se espalha no mesmo penteado, a roupa, o polo, talvez outra cor, talvez outro tamanho, que alberga agora a recente barriga, o mesmo logotipo, o mesmo corte, o mesmo de sempre.
Olha-o outra vez. Procura-lhe os olhos, que se perdem nas letras do espesso jornal.
Não faziam amor há 3 meses. Nunca foderam. Eram casados, não podiam, não deviam. Assim lhe havia ele ensinado. A sua lingua fizera-lhe cócegas nessa única fez que a explorou. Foi rejeitada, quando inovou.
Volta a olhá-lo. Talvez fodesse com as outras. Perdera-lhes a conta, fingiu que ignorou.
Da sua lista riscou amigas, as conhecidas transformou em inimigas, as desconhecidas odiou.
Nesse dia, enquanto os seus olhos não se encontravam, enumerou-as uma a uma. Queria medir o seu beijo, o seu calor, arrepiar-se no seu olhar. Não o encontrou. A vida perfeita, cheia de imperfeições. Contou uma a uma. A amiga da faculdade, a empregada do café, a colega de trabalho, cujo o marido esbofeteou. Uma, duas, três... Que importa agora.
Levantou-se, pagou o café. Espreitou antes de voltar. E os olhos que se perdiam.
Chamou um taxi. Entrou. Deu uma morada. Talvez lhe tivesse ocurrido no momento, talvez o tivesse planeado. Que importa agora.
Voltou a contar. Uma, duas, tres... Filhos, casa, carro e tudo aquilo que lhe tirou. Que importa agora.

2 comentários:

Anónimo disse...

Ah ah, donde copiastes esta cena?

clara disse...

Tenho um livrinho cá em casa.