domingo, 9 de dezembro de 2012

Pela primeira vez

Achava-o estranho. Cruzavam-se, várias vezes, no cigarro.
Sempre abstraído nos seus pensamentos, demasiado concentrado para ver o que se passava à sua volta.
A faladora-mor, aterrorizada com o silencio incomodo entre duas pessoas que partilhavam o mesmo espaço, ia tentado meter conversa. O tempo, há muito tempo que não te via, o trabalho, conversa de chacha. Por vezes, ele respondia-lhe um seco "sim", outras encolhia s ombros, outros não respondia.
Ás vezes, ele aparecia muito penteadinho. Outras vezes, com uma barba que dir-se-ia ser de dois meses, não o tivessem visto dois dias antes, sem ela.
Um certo dia, ele resolveu descer à terra, quando a viu numa luta entre a chama de um isqueiro e umas rajadas de vento certeiras. Explicou-lhe a técnica.
Ela, em jeito de desculpa, mas só para impedir o silencio que a afligia, explicou-lhe que de onde vinha, o vento não soprava assim. E ele olhou-a. Olhou-a nos olhos, mediu-lhe os contornos. Viu-a pela primeira vez.
A partir daquele dia, os silêncios terminaram. Perguntava-lhe que planos tinha. Falava-lhe nos fins-de-semana. Durante cinco dias, falavam nas possibilidades dos outros dois. Ela, sempre demasiado ocupada, para, verdadeiramente, escutá-lo.
Num certo dia, alguém lhe explicou que ele era uma pessoa brilhante. De uma inteligência inigualável. Que os que o conheciam, não sabiam se, do alto da sua inteligência, gozava com esta merda toda, se como muitos outros génios, o que que sobejava num lado, faltava-lhe, noutro. Parafusos, perceba-se.
E foi aí que ela o viu. Pela primeira vez.


E depois queixo-me.

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