terça-feira, 21 de maio de 2013

Não se aceitam devoluções

Conheço duas pessoas que se desfizeram dos seus animais de estimação. Um já vai no terceiro cão de que se desfaz, outra já vai no segundo gato. Um, porque o cão roía-lhe coisas e tinha que ser passeado e treinado, outra porque o gato começou a ter problemas de saúde e não parava de miar. Ela chegou a dizer-me que arranjou o segundo gato, porque saia mais barato comprar um gato novo de uma raça xpto que trazer o gato para a Irlanda. Não consigo perceber isto, juro que não. A minha Balti não tem preço, nada a substituiria e te-la longe de mim partir-me-ia o coração.
Quando decidi ter um cão, não tomei a decisão de animo leve. Sabia que ia haver momentos dificeis, que ia roer coisas, que ia ocupar-me tempo e acarrateria responsabilidades. Deixei de poder ir para os copos já directa do trabalho, porque ela tem as suas necessidades e seria muito cruel da minha parte deixa-la sozinha tantas horas, sabia que não poderia enfrascar-me em Dublin, porque teria que estar sujeita a um autocarro escasso ou a ter que conduzir de volta. Sabia que as ferias teriam que ser planeadas de outra forma, porque teria que a deixar nalgum lado. Tenho tido alguma sorte. Em dois anos de conveniencia, roeu-me apenas UM sapato. Chorou as duas primeiras noites e tive que recorrer a truques para a conquistar já que outros espécimes da raça humana já a teria maltratado e a bicha desconfiava de mim como o diabo da cruz.
Tive sorte, mas tinha plana consciência que poderia não ter tido quando tomei a decisão de a ter na minha casa.
Se com um cão ou um gato me custa atender as atitudes das pessoas, o egoísmo e a falta de afectos (bolas, como é possível não morrer de saudades daquele ser em particular que ocupou a nossa casa?), tenho ainda mais dificuldade no que a filhos diz respeito.
Não percebo como se toma a decisão de ter um filho de animo leve. Já tinha ouvido falar nas historias de pessoas que devolvem filhos adoptivos, ouvi uma historia ate de uma suposta mãe que conheço pessoalmente e nunca consegui entender. Hoje li este testemunho, na primeira pessoa, de alguém que esta a pensar devolver uma filha. Quando comecei a ler, pensei que essa pessoa ia contar como já tinha feito de tudo e mesmo assim era espancada/roubada/ ou sabe-se la o que por uma adolescente.
Esta mãe esperava uma filha que viesse já educada, curada, tratada de uma instituição. Em toda a minha vida, fui uma vez a uma instituição, levar uns brinquedos que se iam deitar fora. Não voltei, dada a vontade que tive de trazer aquelas crianças para casa. Vi que jantaram ovos com salsichas. Vi que os funcionários, que me lembre, três, se desdobravam em todos os trabalhos necessários. Aquelas crianças, que me ofereceram desenhos, que me mostraram a casa, que pedincharam o mais que puderam da minha atenção, são miúdos problematicos. E porque? Porque uma criança abandonada tem que ter muito pouca fé nos adultos. Porque com tantas crianças juntas, é difícil incutir-lhes regras, motiva-las, desenvolve-las, estimula-las. Uma pessoa que se predispõem a ficar com a sua guarda tem que ponderar todos estes factores. Seja um filho adoptado, seja biológico. Vão ocorrer problemas, vai ser necessário disciplina e muito amor para dar. E volto a dizer, seja adoptado ou biológico. Não podemos esperar que venham ensinados, criados e comportados. E não podemos devolver. As responsabilidades assumem-se. Não são camisolas que não foram feitas á medida. São seres, com sentimentos, vontades, sonhos, revoltas. Esta senhora, ainda não a devolveu, porque vieram duas em uma e a outra ate nem da trabalho. Perfilhação em serie, qual promoção de supermercado dois em um. Faltam-me as palavras para dizer o que sinto a esta senhora. É uma revolta muito grande de alguém que toda uma vida decidiu que seria mãe adoptiva, independentemente de ser biológica ou não. De alguém que lê sobre o assunto, que se informa e que, mesmo n sabendo ainda o quando, se prepara. De alguém que é filha, irmã, amiga, dona de um cão. As vezes, brutinha que nem uma porta, mas que desenvolve afectos como qualquer outro ser animal. Alguém que ainda não deu esse passo porque sabe que é cedo e que é necessária estrutura. Alguém que o fará, eventualmente, quando tiver condicoes. Físicas, financeiras, psicológica. Alguém que sabe que pode não ser fácil, mas que também será sempre recompensador.

5 comentários:

Rita Maria disse...

Credo!

Anónimo disse...

Obrigado por este texto... pena não ser lido por uma audiência exponecialmente maior.

Bj,
AA

Anónimo disse...

Oh Clara, este post nao li, tens esta cena muito grande, mas so pelo titulo ja sei do que falas, infelizmente cenas tristes deste mundo.

clara disse...

E tanto mais tinha eu a dizer.
Obrigada, AA, pelo comentário. Bemvindo de volta, que, por aqui, já se sentia a sua falta. :)

mimi disse...

Um dos meus cães, com 16 anos, morreu há 3 semanas. Morreu um pouco de mim...Um dos dias mais tristes da minha vida.