sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

helena

Passaram tantos por mim. Porque não ficou nenhum? Para que houvesse um teria que haver todos os outros? Para que esse passasse teriam que passar todos? Teve mesmo que ser assim?

Saio sozinha, encontro alguns amigos nos locais do costume, e volto sozinha. Dói-me muito ver a cama vazia. Parece-me injusto. Cada vez é mais difícil. Vejo as coisas do quarto: a cama branca, as duas cadeiras, as cortinas caídas. Fazem-me sentir como se eu estivesse ali a mais, como se fosse uma intrusa.

Às vezes dormem comigo. Mas é só uma infidelidade que cometem para provarem a si próprios que ainda estão muito agarrados às namoradas. Quando pedem desculpa ainda são mais miseráveis. Fico com os nomes de todas na memória.

Rogo por amor e ninguém me ouve. Mais valia não haver palavras, só suspiros e risos e choros. Talvez alguém ouvisse. Talvez alguém entendesse.

Dou comigo a rezar diante de uma parede de pedra e tenho por única resposta o eco da minha voz. Estou cada vez mais sozinha.

Ninguém me agarra e diz: "Quero-te como não é possível querer mais alguém. Leva-me contigo. Ou então eu levo-te comigo." Não. Tocam-me mas ninguém me agarra. Querem só tocar. Batem nos vidros, riem-se e eu rio-me. E depois partem.

Estou muito cansada. O meu coração está muito pesado.

Passaram tantos por mim. Porque não ficou nenhum? Teria que ser assim, mesmo assim?

Pedro Paixão

1989

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Isto deve ser das coisas mais tristes que li na vida

Encontrado no Shiuuuu

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Maria Capaz

Tenho andado às voltas com esta história da barbearia em que não podem entrar mulheres e os comentários e reacções que a coisa suscitou.
Nunca me considerei femininista, precisamente porque nunca me identifiquei com as femininistas que conheci, nunca concordei com quotas em vez de méritos e, sobretudo, porque acho necessário saber identificar as diferenças antes de se reivindicar as igualdades. 
Não conheço o dono desta barbearia. Se calhar é mesmo um machista do pior e merecia que o seu local de trabalho fosse invadido por revolucionários. Por outro lado, não acho que o tema mereça a atenção de nenhuma mulher que lute pelos seus direitos. E nem é porque não tenho barba, é porque tenho outras questões me inquietam bastante mais. Quem lê naquele cartaz que a mulher está a ser colocada numa fasquia inferior à do cão, está a enfiar uma carapuça.
Homens e mulheres são diferentes. Ponto. Começamos pelas diferenças óbvias, as físicas, acabamos, nas diferenças de aptidão, comportamento e intelectuais. 
Os homens sempre tiveram esta necessidade de estar entre eles, de poder falar de javardices, enquanto nós vamos tendo as nossas conversas pelo telefone, por mail ou através de blogues. Não precisamos tanto de presença física nem de cerveja. Se os homens o querem fazer numa barbearia, be my guest. 
Nos comentários que li, li uma comparação muito errada, deste tema com o novo projecto da Rita Ferro Rodrigues e da Iva Pamela, o site Maria Capaz. Em primeiro lugar, o site é composto por artigos escritos por homens e mulheres. Em segundo lugar, o seu acesso não é vedado a homens, qualquer um o pode ler. O site é sobre mulheres. Primeiro porque pode, depois porque como qualquer outro projecto, escolheu o seu nicho de mercado e, finalmente, porque, efectivamente, ainda se verifica descriminação e é necessário falar nela e lutar contra ela. 
Outro comentário que li, foi a comparação com as entradas nas discotecas. E gostava de explicar isto. O problema não está assente em sexismo, mas em capitalismo. Em Portugal, uma mulher que se veja forçada a comprar um valor mínimo de bebidas, quando só faz tenções de beber uma Coca-cola, fica em casa. Uma discoteca que não tenha mulheres, não interessa a homens. No país onde vivo, as entradas são cobradas a todos os géneros. Aqui, as mulheres não se fazem rogadas a uma boa quantidade de álcool a ingerir, mas na verdade, uma entrada paga, aqui, não dá direito a bebida nenhuma. Apesar da grande fonte de rendimento ser a venda de bebidas, parte-se do princípio  que o serviço oferecido é mais abrangente. Há uma música, um ambiente, uma segurança e uma limpeza que também são cobradas. O modelo em que assenta o negócio e as mentalidades são diferentes. Podemos discutir qual é o mais correcto, mas não numa óptica sexista. 
Para mim, estes são três  assuntos que não vale a pena discutir e as revoluções que me parecem verdadeiramente necessárias teriam que ser contra as entidades empregadoras que pagam menos a uma mulher (ou outras "minorias") que tenha as mesmas competências, contra os maridos que, depois duma jornada de trabalho, acham que só a mulher se deve dedicar a essa outra, a da casa e dos filhos e contra as situações que se vivem ainda fora da Europa, onde as mulheres não tem ainda voz, direitos e/ou visibilidade. 
Com o resto, não me macem. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

So much love

O melhor do meu dia dos namorados foi o facebook. Pura poesia é o que se lê nos posts sobre amor no facebook.
De todos os posts tenho dois preferidos. O da rapariga que odeia o dia e consumismo e essas tretas todas, mas claro, não perde a oportunidade de se declarar ao seu mais que tudo. Para isso, conseguiu a simples mas forte proeza de incluir num unico post a palavra "cagalhão" e a expressao "amo-te muito, meu amor". Se isto não é o sonho, não sei o que será...
O segubdo post que mais gostei foi o do rapaz que explica que ele e a namorada optaram por não comemorar este ano. Estão a atravessar uma crise existencial. Ele existe, ela não.

Bom fim-de-semana.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O engodo (contém spoiler)

Tenho que confessar que li as famosas sombras do outro. Faço-o com muita vergonha, porque os livros são maus, em vários aspectos.
Primeiro estão mal escritos. Eu li a versão em inglês. Não sou nativa e naquilo que muitos proclamam ser uma escrita "básica", eu encontrei erros flagrantes. 
Depois porque o livro é um engodo. Auto denomina-se como soft porn e realmente as personagem andam ali que nem coelhinhos. Uma pessoa está a ler que o gajo pestanejou e já sabe que vai haver sexo. E fica ali sempre à espera do tal bdsm, que se resume a um quarto de brinquedos, umas algemas e umas chicotadas. A bamby protagonista da história chora e foge praí à terceira chicotada. A partir daí, quando achamos q a coisa vai começar a aquecer, em termos sexuais, esfria. Continua a haver sexo, mas menos kinky. O gajo apaixona-se e cura-se. Pelo meio descobre que o mal dele é umainfância  problemática e vai ao psicólogo e coiso. 
Este não é um livro sobre sexo. É um livro sobre love saves it all. O sonho de qualquer mulher. 
O livro é o engodo em que todas acreditamos. Somos desrespeitadas, mal tratadas, fazemos vontades para agradar e continuamos ali. Num misto de masoquismo e crença que o gajo só nos trata assim porque ainda não percebeu que somos a mulher da vida deles. E quando o fizer, os problemas de caractér vão ficar, ali, resolvidos. Já me aconteceu conseguir conquistar o gajo com mau caractér. A relação passou a ser séria, namoro assumido, familias envolvidas e pardais ao ninho. Também me aconteceu ao cobtrário e o mau caractér fazer de mim gato-sapato. A lição que retirei é que eu posso ser a mulher da vida de quem quer que seja, nem todos serão o homem da minha vida. Ninguém muda, seja pelo que for e eu, como companheiro, não quero um crápula. 
Quanto aos livros, não consegui acabar o terceiro. Talvez esteja errada, mas estou convencida que a história acabou com filhinhos. Que as personagens engordaram, passaram a ter que se preocupar mais com o colesterol e a educaçao das crias. Ela passou a fazer adepilação uma vez por ano. No mesmo dia em que voltaram a dar uso às algemas.  

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Corpos danone

Foi preciso engordar 10 quilos para fazer as pazes com o meu corpo. Há 24 anos que andavamos em guerra, desde o momento que passou a ser necessário usar arames no peito. Desde a adolescência que não sou magra. E que sempre me informaram que não era magra. Uma ida à praia passou a ser tortura; umas alças no verão, uma vergonha; uma ida aos provadores duma loja, um pesadelo. 
Algures no tempo, alguém me perguntou qual a parte preferida do meu corpo. Nao valia dizer que era o cabelo, mãos ou pés. E eu não tinha resposta, odiava cada centimetro de mim. 
Sempre me fingi despreocupada e nunca larguei as minhas massas com natas, a minha Coca-Cola e a minha Nutella. 
Há três anos, numa altura em que o corpo e tudo em mim me era indiferente, dado o estado de espírito em que encontrava, engordei 10 quilos de um dia para o outro. Foi a primeira vez que me propus a fazer dieta. E fiz. Dos dez quilos, perdi uns 5. Desde aí, o peso vai oscilando. Ouvi muitos comentários crueis nessa altura. Chorei quando tentei vestir certas roupas. Sofri enquanto comi alface e maçãs. Depois passou-me. Caguei. Com ou menos quilos, nunca nenhum gajo me mandou voltar a vestir. Nem nunca deixei de ter mouro na costa. As roupas, talvez um número abaixo, um número acima, ainda se arranja bonita.
Hoje, pela primeira vez, vesti umas calças skinny. Quando tinha menos 20 quilos, não ousava sequer experimentar. Porque evidenciava anca, porque apertava a barriga, porque me iria, concerteza, ficar mal. 
Hoje, vesti-as. E gostei do que vi no espelho. E gostei dos elogios que recebi. 
E vi, não qual, mas quais as partes preferidas do meu corpo. E não senti necessidade de as esconder. Pelo contrário.
 A celulite? A barriga? Não me definem. Não fazem de mim um niquinho menos interessante. São resultado de momentos  prazeirosos, passados à volta de uma mesa, onde a boa comida, condimentou a boa conversa. São também resultado de horas passadas na cozinha, onde se aprimorou um resultado. São também resultado de muitas refeições sozinha, onde me agrada a companhia. 
Não sou magra. Não sou nada do que se vê nas revistas. Tampoco sou desleixada. Aprendi a esquecer os defeitos e enaltecer as qualidades. Físicas e não físicas. E nunca mais deixarei que me digam o contrário.