terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Corpos danone

Foi preciso engordar 10 quilos para fazer as pazes com o meu corpo. Há 24 anos que andavamos em guerra, desde o momento que passou a ser necessário usar arames no peito. Desde a adolescência que não sou magra. E que sempre me informaram que não era magra. Uma ida à praia passou a ser tortura; umas alças no verão, uma vergonha; uma ida aos provadores duma loja, um pesadelo. 
Algures no tempo, alguém me perguntou qual a parte preferida do meu corpo. Nao valia dizer que era o cabelo, mãos ou pés. E eu não tinha resposta, odiava cada centimetro de mim. 
Sempre me fingi despreocupada e nunca larguei as minhas massas com natas, a minha Coca-Cola e a minha Nutella. 
Há três anos, numa altura em que o corpo e tudo em mim me era indiferente, dado o estado de espírito em que encontrava, engordei 10 quilos de um dia para o outro. Foi a primeira vez que me propus a fazer dieta. E fiz. Dos dez quilos, perdi uns 5. Desde aí, o peso vai oscilando. Ouvi muitos comentários crueis nessa altura. Chorei quando tentei vestir certas roupas. Sofri enquanto comi alface e maçãs. Depois passou-me. Caguei. Com ou menos quilos, nunca nenhum gajo me mandou voltar a vestir. Nem nunca deixei de ter mouro na costa. As roupas, talvez um número abaixo, um número acima, ainda se arranja bonita.
Hoje, pela primeira vez, vesti umas calças skinny. Quando tinha menos 20 quilos, não ousava sequer experimentar. Porque evidenciava anca, porque apertava a barriga, porque me iria, concerteza, ficar mal. 
Hoje, vesti-as. E gostei do que vi no espelho. E gostei dos elogios que recebi. 
E vi, não qual, mas quais as partes preferidas do meu corpo. E não senti necessidade de as esconder. Pelo contrário.
 A celulite? A barriga? Não me definem. Não fazem de mim um niquinho menos interessante. São resultado de momentos  prazeirosos, passados à volta de uma mesa, onde a boa comida, condimentou a boa conversa. São também resultado de horas passadas na cozinha, onde se aprimorou um resultado. São também resultado de muitas refeições sozinha, onde me agrada a companhia. 
Não sou magra. Não sou nada do que se vê nas revistas. Tampoco sou desleixada. Aprendi a esquecer os defeitos e enaltecer as qualidades. Físicas e não físicas. E nunca mais deixarei que me digam o contrário. 


3 comentários:

Isabela disse...

A verdade é que se não for por estes momentos alegres e prazeirosos também não vale a pena cá andar caramba!!
Ter cuidado connosco mas também sem torturas.

clara disse...

Mesmo. Sem fazer da coisa uma fatalidade.

Isabela disse...

Exato.
;)